terça-feira, 2 de agosto de 2016

Investigação contra Queiroz Galvão abre flanco que pode atingir PSDB e PMDB



Ao alcançar a construtora Queiroz Galvão, alvo da Operação Resta Um, 33ª fase da Lava Jato, a força-tarefa da maior operação contra corrupção no País, abre uma nova frente de investigação que, por consequência, pode atingir o PSDB e o PMDB. Delatores já relataram à Lava Jato as relações da empreiteira com os dois partidos.

O primeiro colaborador a citar a Queiroz Galvão em delação foi o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa. Em outubro de 2014, o executivo declarou que o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra – morto em março de 2014 – o procurou e cobrou R$ 10 milhões para que a Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobrás, aberta em julho de 2009 no Senado, fosse encerrada. Segundo Costa, o dinheiro foi providenciado pela empreiteira Queiroz Galvão. O tucano teria dito ao ex-diretor que o dinheiro seria usado para a campanha de 2010.

O doleiro Alberto Youssef, que também fez delação, já havia confirmado as informações sobre o pagamento ao PSDB, reveladas por Paulo Roberto Costa. Em janeiro deste ano, outro delator Carlos Alexandre de Souza Rocha, o Ceará, confirmou à Procuradoria-Geral da República o pagamento de R$ 10 milhões ao ex-presidente do PSDB para “abafar” a CPI da Petrobrás de 2009.

Um dos delatores-bomba da Lava Jato, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado envolveu o presidente em exercício Michel Temer (PMDB) em propina da para campanha eleitoral em São Paulo. O delator revelou uma suposta operação de captação de recursos ilícitos, envolvendo Temer e o senador Valdir Raupp (PMDB-RR), para abastecer, em 2012, a campanha do então candidato Gabriel Chalita (ex-PMDB, atualmente no PDT) para a Prefeitura de São Paulo. A Queiroz Galvão teria repassado R$ 1,5 milhão para o esquema. As declarações de Sérgio Machado não fazem parte da Operação Resta Um e estão no Supremo Tribunal Federal (STF).

Sérgio Machado revelou também em um de seus depoimentos o medo e a preocupação com possível 'delação' da empreiteira Queiroz Galvão. Empreiteiras não fazem delação premiada, mas, sim, acordos de leniência. O delator poderia estar se referindo aos executivos da empreiteira quando disse do seu temor de uma eventual delação da empreiteira. A Queiroz Galvão não fechou leniência e seus dirigentes não fizeram delação premiada na Lava Jato.

Sérgio Machado foi próximo aos barões do PMDB e liderou a Transpetro entre 2003 e 2014. O executivo relatou à Procuradoria-Geral da República que em conversas com o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL) e com o ex-senador José Sarney (PMDB-AP), em fevereiro desate ano, a 'delação' da Queiroz foi colocada na conversa.

"Conversaram ainda sobre o receio do depoente de novas delações e o risco que isso representava para todos, porque empresas que poderiam vir a fazer delação tinham mantido relações com o depoente e feito doações de vantagens ilícitas, inclusive oficiais, para todos com recursos oriundos dos contratos da Transpetro", disse o delator.

"Registrou que isso representaria um enorme risco para todos, sobretudo com relação às empresas Queiroz Galvão, que ainda não havia feito delação, e Camargo Corrêa, cujo prazo do acordo de leniência ainda estaria em aberto; que apesar de o depoente tratar diretamente com os donos de tais empresas ainda assim haveria risco em caso de delação."

Os partidos negam ter recebido valores ilícitos. A empreiteira reiteradamente tem negado o repasse.

Relatório chama ação de Dilma de 'atentado à Constituição' e pede continuidade do impeachment

 

 
  © Ueslei Marcelino / Reuters
 
O relator do processo de impeachment no Senado, senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), apresentou um relatório a favor de que a presidente afastada, Dilma Rousseff, passe pelo julgamento final no plenário da Casa.

De acordo com o calendário definido no fim de semana pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, a etapa final começaria em 29 de agosto e a expectativa é que durasse até 5 dias. 

O Planalto tenta, contudo, articular uma antecipação para 25 de agosto, a fim de não comprometer a participação do presidente interino, Michel Temer, em uma reunião do G20, marcada para o início de setembro.

O presidente da comissão do impeachment, senador Raimundo Lira (PMDB-PB), afirmou que senadores do PMDB irão se reunir com Lewandowski no fim da tarde desta terça feira (2) para discutir o assunto. 

No texto com 441 páginas, lido nesta tarde na comissão do impeachment, Anastasia considera procedente a acusação de crime de responsabilidade pelas abertura de créditos suplementares por decretos presidenciais sem autorização do Congresso Nacional e pelas pedaladas fiscais, atrasos de repasses do Tesouro Nacional ao Banco do Brasil no Plano Safra.

Sobre os decretos, o tucano alegou que Dilma desrespeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) ao contar com uma meta fiscal que ainda não havia sido aprovada pelo Congresso. "Trata-se de conduta grave, que atenta não apenas contra a responsabilidade fiscal, mas principalmente contra as prerrogativas do Congresso Nacional. Embora a política fiscal seja executada pelo Poder Executivo, ela somente se legitima pela aprovação do Poder Legislativo, que é o representante maior da sociedade brasileira", argumenta Anastasia.

Quanto às pedaladas, o relator destacou que o laudo pericial constatou ter sido uma operação de crédito.
"A gravidade dos fatos constatados não deixa dúvidas quanto à existência não de meras formalidades contábeis, mas de um autêntico “atentado à Constituição”."
Responsável pela defesa de Dilma, José Eduardo Cardozo, lembrou que o Ministério Público determinou o arquivamento da investigação por entender que não houve crime de responsabilidade.

Os senadores Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP) apresentaram um voto em separado, contrário à continuidade do impeachemnt. O texto contudo, não deve ter efeitos práticos, uma vez que a tendência é que o colegiado vote com Anastasia.

Próximos passos

Em 12 de maio, o Senado aprovou, por 55 votos a 22, a admissibilidade do processo de impeachment. Começou então a "pronúncia", etapa intermediária em que os integrantes da comissão ouviram depoimentos de testemunhas e solicitaram documentos. Também nesta fase, foram entregues as alegações finais da acusação e da defesa.

O parecer do tucano deve ser apreciado na próxima quinta-feira (4) e será então submetido ao plenário principal do Senado, independentemente de ter sido aprovado ou rejeitado pelo colegiado. A previsão é de que isso aconteça na próxima terça-feira (9).

No plenário, é necessária maioria simples para que Dilma seja submetida a julgamento final. Nesta etapa, presidida pelo presidente do Supremo, são necessários 54 votos para que a petista seja afastada definitivamente.

Procurador diz que Lula foi o 'chefe de organização criminosa' para obstruir Justiça




Denúncia contra o ex-presidente, acolhida pela Justiça Federal em Brasília, assinala que 'não se pode desconsiderar que, em uma organização criminosa, o chefe sempre restará na penumbra, protegido'. © Foto: Heinrich Aikawa/Instituto Lula Denúncia contra o ex-presidente, acolhida pela Justiça Federal em Brasília, assinala que 'não se pode desconsiderar que, em uma organização criminosa, o chefe sempre…
Ao denunciar o ex-presidente Lula, por obstrução da Justiça, o procurador da República Ivan Cláudio Marx atribuiu ao petista papel de 'chefe de organização criminosa'.


A denúncia foi recebida pela Justiça Federal em Brasília na sexta-feira, 29. O ex-presidente tem 20 dias para apresentar sua defesa. Ele nega envolvimento no caso.

O procurador destaca que o ex-senador Delcídio Amaral (ex-PT/Sem partido/MS) atribuiu a Lula o papel de ‘chefe da empreitada’ para comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró (Internacional), que fechou acordo de delação premiada.

Delcídio também fez delação premiada. Seu relato teve peso decisivo na denúncia contra Lula.
A trama, segundo a acusação, envolve o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula e preso na Lava Jato desde 24 de novembro de 2015. O temor do grupo era que Cerveró pudesse incriminar Bumlai no esquema de corrupção instalado na Petrobrás.

“A narrativa de Delcídio se demonstrou clara, plausível e, ainda, corroborada pela existência das reuniões prévias que realizou com Lula antes de Bumlai passar a custear os valores destinados a comprar o silêncio de Cerveró. Ressalte-se que a existência das reuniões3 foi confirmada por Lula em seu Termo de Declarações prestado à Procuradoria-Geral da República”, diz a denúncia subscrita pelo procurador Ivan Marx.

“A compra desse silêncio buscava também preservar Bumlai por crimes cometidos no interesse do Partido dos Trabalhadores, ocorridos enquanto Lula exercia, pelo PT, o mandato de Presidente da República”, afirma o procurador.

Segundo a denúncia, com o avanço das investigações sobre ‘o esquema criminoso’, a primeira tentativa de barrar as investigações passou pela tentativa de compra do silêncio de possíveis delatores.

“Após o insucesso desse intento, ao menos ao que se sabe, restou apenas a alternativa de se tentar buscar a anulação de investigações”, prossegue a denúncia, que faz alusão a uma suposta ofensiva do ex-presidente para tentar interferir na apuração. “E, nesse aspecto, os diálogos constantes de folhas 2480-2483, apontam que, no início do ano de 2016, momento em que Cerveró já havia acordado sua colaboração premiada, Lula atuou diretamente com o objetivo de interferir no trabalho do Poder Judiciário, do Ministério Público e do Ministério da Justiça, seja no âmbito da Justiça de São Paulo, seja do Supremo Tribunal Federal ou mesmo da Procuradoria-Geral da República.”

“Toda essa situação vem reforçar a confiabilidade da narrativa de Delcídio do Amaral”, diz a denúncia. “E não se pode desconsiderar que, em uma organização criminosa, o chefe sempre restará na penumbra, protegido, de modo que não há de se esperar, contra este, uma prova tal como uma ordem objetiva gravada ou mesmo uma filmagem de entrega pessoal de valores.”

Segundo o procurador, ‘o chefe da organização criminosa está sendo buscado em investigações conduzidas pela Procuradoria-Geral da República’.

“No entanto, nesse caso específico de atos de obstrução da Justiça, o chefe foi apontado pelo colaborador Delcídio, em afirmação reforçada por elementos fáticos e, acima de tudo, pela lógica dos acontecimentos.”

Construtora Queiroz Galvão é alvo da 33ª fase da Lava Jato



Polícia Federal deflagra Operação Boca Livre, em São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. 
  © Foto: Vagner Rosário/VEJA Polícia Federal deflagra Operação Boca Livre, em São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. 
 
Depois de os investigadores terem conseguido desbaratar o Clube do Bilhão, cartel de empreiteiras que fraudava obras e contratos na Petrobras, a Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira a 33ª fase da Operação Lava Jato. Batizada de Resta Um, a nova fase mira a atuação da construtora Queiroz Galvão e tem como alvos os executivos Idelfonso Collares e Othon Zanoide Filho. No total foram expedidos 23 mandados de busca, 2 de prisão preventiva, 1 de prisão temporária e 6 de condução coercitiva.

A Resta Um reúne informações de corrupção e fraude nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, na Refinaria Abreu e Lima e em diversas refinarias, como a do Vale do Paraíba, Landulpho Alves e na de Duque de Caxias. De acordo com a PF, a Queiroz Galvão tem o terceiro maior volume de contratos investigados no escândalo do petrolão.

Delatores e documentos recolhidos em fases anteriores das investigações apontaram que a empreiteira pagava propina às diretorias de Serviços e de Abastecimento, comandadas à época por Renato Duque e Paulo Roberto Costa. Os repasses de dinheiro sujo se aproximam dos 10 milhões de reais. Na transação para liberar dinheiro e subornar funcionários da Petrobras, a Queiroz Galvão e o consórcio repassaram milhões de dólares em propina para contas secretas no exterior. Os investigadores contam com depoimentos e comprovantes de repasses milionários feitos pelo trust Quadris, vinculado ao Quip.

De acordo com depoimento de delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia, as empresas Queiroz Galvão, IESA e Camargo Corrêa e a própria UTC, que integravam o consórcio Quip, aceitaram pagar, 2,4 milhões de reais em caixa dois para a campanha à reeleição do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. O dinheiro foi providenciado por meio da empresa Quadris e veio de depósitos armazenados fora do país e vinculados a obras da plataforma P53.

O delator disse que o pedido de caixa dois em benefício de Lula partiu do ex-tesoureiro do PT José de Fillipi Junior. Na época, a Queiroz Galvão era líder do consórcio Quip e a decisão de realmente pagar a Lula foi discutida em uma reunião em que estava presente, por exemplo, o executivo Ildefonso Colares, alvo hoje da 33ª fase da Lava Jato.

Na fase batizada de Resta Um ainda há evidências de como a Queiroz Galvão atuou para atrapalhar as investigações da CPI da Petrobras instalada no Senado. Em junho, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) denúncia contra o deputado federal Dudu da Fonte (PP-PE) por indícios de que ele intermediou pedido de propina para barrar em 2009 as investigações da CPI da Petrobras. Segundo o Ministério Público, Dudu cometeu o crime de corrupção passiva porque atuou junto ao ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa para pedir 10 milhões de reais a fim de que o então presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, atuasse para que a comissão de inquérito não produzisse resultado efetivo.

Para viabilizar o dinheiro, Dudu, Sérgio Guerra e Paulo Roberto Costa se reuniram pelo menos quatro vezes no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2009, para acertar detalhes do pagamento. Uma das reuniões foi gravada em áudio e vídeo e entregue ao Ministério Público. Acerto feito, Paulo Roberto recolheu 10 milhões de reais do então deputado José Janene, controlador do caixa da propina do PP. Segundo as investigações, os valores acabaram sendo facilmente providenciados pelas empreiteiras Queiroz Galvão e Galvão Engenharia.

Informações sobre distribuição de propina para influenciar o andamento de trabalhos de comissões de inquérito já haviam sido escancaradas quando a Polícia Federal prendeu o ex-senador Gim Argello, na 28ª fase da Lava Jato. Naquele caso, o executivo José Antunes Sobrinho, um dos sócios do grupo Engevix, por exemplo, prestou depoimento e disse diante de Sergio Moro ter sido procurado por Léo Pinheiro, da OAS, que teria lhe feito um convite para integrar o grupo de empreiteiras que atenderiam aos pedidos de Argello por doações eleitorais no ano de 2014. De acordo com Antunes Sobrinho, o ex-presidente da OAS citou, além da própria empresa, Toyo Setal, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Odebrecht e “uma das Galvão, ou Queiroz Galvão, ou Galvão Engenharia” como membros do grupo. Cada uma contribuiria com 5 milhões de reais ao ex-senador.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Cidadão brasileiro financiou o PT’, diz procurador que acusa Lula


Na denúncia contra ex-presidente por obstrução da Justiça, Ministério Público Federal aponta que empréstimo de R$ 12 milhões tomado em 2004 por pecuarista amigo do petista junto ao Banco Schahin, envolvendo contrato com a Petrobrás, 'compensou' dívida do partido
 
Fábio Fabrini, Julia Affonso e Mateus Coutinho

Sede do PT, em São Paulo, que teve sigilo telefônico quebrado pela Operação Lava Jato Foto: Reprodução/Google StreetView
Sede do PT, em São Paulo, que teve sigilo telefônico quebrado pela Operação Lava Jato Foto: Reprodução/Google StreetView

O procurador da República Ivan Cláudio Marx, do Ministério Público Federal em Brasília, afirmou que o ‘cidadão brasileiro’ bancou dívida do PT. Ao denunciar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por obstrução da Justiça – acusação recebida pela 10.ª Vara Federal do Distrito Federal, na sexta-feira, 29 de julho -, Marx descreve ponto a ponto a operação de empréstimo de R$ 12 milhões, realizado em outubro de 2014, do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula, junto ao Banco Schahin – o dinheiro, segundo o próprio Bumlai, foi destinado ao PT que, na ocasião, estava em dificuldades de caixa.

“Como se observa, o Banco Schain financiou o PT e depois foi recompensado por meio da utilização de uma empresa controlada pelo governo do mesmo partido. Ao fim, confundindo-se o público com o privado, foi o cidadão brasileiro quem, por meio de seus impostos, financiou o PT”, sustenta o procurador.

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A empresa a que se refere o procurador é a Petrobrás. O empréstimo é um capítulo emblemático da Operação Lava Jato. Em contrapartida à liberação do montante, o Grupo Schahin foi contemplado com um contrato sem licitação de US$ 1,6 bilhão com a estatal petrolífera para exploração de navio sonda.

“José Carlos Bumlai, Maurício Bumlai e Cristiane Dodero Bumlai (estes, familiares do pecuarista) receberam um empréstimo fraudulento do Banco Schahin em valor superior a 12 milhões de reais para quitar uma dívida do PT. Posteriormente, e em razão de o PT não ter quitado a dívida, foi utilizada a empresa Petrobrás para 1compensar’ o Banco Schahin por meio da contratação, junto à empresa Schahin Engenharia, do navio.,sonda Vitória 10.000 ao custo aproximado de 1,6 bilhão de dólares. Esses fatos foram confirmados por José Carlos Bumlai em seu Termo de Declarações prestado à Procuradoria-Geral da República. Sobre a contratação da Schahin Engenharia pela Petrobrás, para ‘compensar’1 a dívida do PT, os depoimentos citados referem a ‘bênção’ de Lula ao negócio.”

O procurador acusa o ex-presidente de fazer parte de um suposto esquema para comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró (Internacional), que fez delação premiada.

A reportagem pediu manifestação do PT, mas ainda não obteve retorno.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE LULA


O ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva não recebeu citação relativa a processo que tramita perante a 10a. Vara Federal de Brasília (IPL n. 40755-27.2016.4.01.3400). Mas, quando isso ocorrer, apresentará sua defesa e, ao final, sua inocência será certamente reconhecida.

Lula já esclareceu ao Procurador Geral da República, em depoimento, que jamais interferiu ou tentou interferir em depoimentos relativos à Lava Jato.

A acusação se baseia exclusivamente em delação premiada de réu confesso e sem credibilidade – que fez acordo com o Ministério Público Federal para ser transferido para prisão domiciliar.

Lula não se opõe a qualquer investigação, desde que realizada com a observância do devido processo legal e das garantias fundamentais.

Roberto Teixeira e Cristiano Zanin Martins


Tchau querido': Quase 1 mês após renúncia, Cunha entrega as chaves da residência oficial



© Marcelo Camargo / Agência Brasil
  Longe do cargo de presidente da Câmara dos Deputados desde 7 de julho, quando renunciou ao posto, o deputado afastado, Eduardo Cunha, deixou a residência oficial.

As chaves do imóvel foram entregues à Bernadette Maria França Amaral Soares, administradora da residência, nesta segunda-feira (01). Ele se mudou para um apartamento funcional em Brasília, do mesmo tipo que outros parlamentares têm direito.

A estimativa é que, no comando da Casa, o deputado custava cerca de R$ 500,00 por mês para os cofres públicos.

Na última quarta-feira, o peemedebista fez um churrasco para cerca de 50 funcionários. Participaram seguranças, assessores, policiais legislativos e funcionários da casa, além da esposa do parlamentar, a jornalista Cláudia Cruz. O almoço foi animado com música ao vivo.

Cunha tinha até o próximo dia 6 para deixar a residência oficial.

Ele renunciou ao comando da Casa dois meses após ter sido afastado do cargo e do mandato pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A previsão é que o plenário da Câmara julgue até a próxima semana a cassação do mandato.

Réu por corrupção e lavagem de dinheiro no âmbito da Lava Jato, Cunha pode perder os direitos políticos por mentir à CPI da Petrobras ao negar ter contas no exterior. As contas foram abastecidas com dinheiro desviado da Petrobras, de acordo com as investigações do Ministério Público Federal.

Dilma diz que vai propor em carta pública plebiscito sobre novas eleições




A presidente afastada, Dilma Rousseff, disse à BBC Brasil que é preciso "lutar" pela realização de um plebiscito que consulte a população sobre a necessidade de uma eleição presidencial antecipada.

De dentro do Palácio do Alvorada, residência oficial da Presidência da República, ela elabora sua cartada final para tentar voltar ao Palácio do Planalto, sede do governo, a cerca de 5km dali - o feito hoje parece bastante difícil de ser alcançado.

Em entrevista exclusiva concedida na sexta-feira, com participação também da BBC Mundo (serviço em espanhol da BBC), ela contou que divulgará nesta semana os detalhes de sua proposta, em carta direcionada ao povo brasileiro e ao Senado.

Para tentar convencer ao menos 27 dos 81 senadores a votar contra sua cassação definitiva, Dilma vai se comprometer a apoiar a convocação de um plebiscito após seu eventual retorno ao comando do país.

"Estou defendendo um plebiscito porque quem pode falar o que eu devo fazer não é nem o Congresso, nem uma pesquisa, ou qualquer coisa. Quem pode falar é o conjunto da população brasileira que me deu 54 milhões e meio de votos", afirmou Dilma.

Presidente afastada quer convencer senadores a votar contra cassação com proposta de plebiscito Além disso, também pretende comparecer pessoalmente para fazer sua defesa quando o caso for julgado pelo plenário do Senado, entre final de agosto e início de setembro.

"Eu quero muito ir. Depende das condições. Como o presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, presidirá (o julgamento), acredito que haverá condições", afirmou.
No Palácio do Alvorada, Dilma elabora sua cartada final para tentar voltar ao Planalto © Foto: Fornecido por BBC No Palácio do Alvorada, Dilma elabora sua cartada final para tentar voltar ao Planalto 
 
Sua esperança é que a proposta de plebiscito sensibilize alguns senadores. Cristovam Buarque (PPS-DF), por exemplo, votou pelo afastamento da presidente, mas ainda não decidiu sua posição no julgamento. Ele tem defendido que a melhor saída para a crise seria a eleição antecipada. É a opinião também da maioria da população brasileira, segundo pesquisas recentes.

Para que a petista seja condenada, é preciso que 54 dos 81 senadores votem contra ela. O governo do presidente interino Michel Temer calcula ter cerca de 60 votos pela cassação de Dilma.

Dificuldade

A realização de um plebiscito depende de aprovação do Congresso - mesmo que Dilma consiga retornar à Presidência, não poderia convocar a consulta com uma mera canetada. Hoje parece muito difícil aprovar a proposta, já que a maioria dos parlamentares apoia Temer.

A presidente afastada reconheceu a dificuldade à BBC Brasil, mas ressaltou que é necessário apenas o apoio da maioria simples dos congressistas (metade dos presentes na sessão) para convocar um plebiscito.

No entanto, como antecipar a eleição exige uma mudança na Constituição, muitos juristas e parlamentares consideram que proposta só poderia caminhar com apoio de três quintos dos deputados e senadores (quantidade mínima de votos exigida para aprovar uma emenda constitucional).

Dilma reconhece a dificuldade de aprovar um plebiscito sobre novas eleições, mas diz que é preciso "lutar" © Fornecido por BBC Dilma reconhece a dificuldade de aprovar um plebiscito sobre novas eleições, mas diz que é preciso "lutar" 
 
"Acredito que nós temos que lutar para viabilizar o plebiscito. Pode ser difícil passar (no Congresso), a eleição direta foi também. Nós perdemos quando nós defendemos as Diretas Já (campanha pelo voto direto em 1984) e tinha milhões de pessoas nas ruas. Perdemos num momento e ganhamos no outro", afirmou.

Questionada sobre se a antecipação da eleição poderia criar mais instabilidade política, Dilma respondeu: "Essa argumentação foi a última que a ditadura militar fazia. 'Sabe por que a gente não pode fazer eleição?
Primeiro, porque causa instabilidade política; segundo, o povo não é capaz de votar e escolher devidamente; terceiro, nem sempre a maioria é lúcida'. Essas três razões nós deram 20 anos de ditadura".

'Gesto tresloucado'

Um outro caminho para antecipar as eleições seria a renúncia simultânea de Dilma e Temer. Questionada pela BBC Brasil se cogitaria propor um acordo nesse sentido, a petista disse que "seria muita ingenuidade da nossa parte (acreditar) que ele teria grandeza de renunciar".

O peemedebista de fato tem rechaçado a ideia. Ela tampouco aceita essa hipótese.

A presidente afastada voltou a dizer que o processo de impeachment é um "golpe" porque não haveria crime de responsabilidade que justifique sua cassação. Já os que a acusam dizem que ela cometeu ilegalidades na gestão das contas públicas.

Dilma diz que seria "muita ingenuidade" acreditar que Temer renunciaria © Fornecido por BBC Dilma diz que seria "muita ingenuidade" acreditar que Temer renunciaria 
 
"Quando você tem um julgamento de um presidente sem crime de responsabilidade, nada mais oportuno do que esse presidente gentilmente sair da pauta. Não renuncio. Eu volto para o governo e faço um plebiscito. É essa a proposta. Não tem hipótese de eu fazer esse gesto tresloucado: renunciar", afirmou.

"Eu acho que eu vou ser conhecida também como a primeira (presidente) mulher que, apesar de tudo, não deu um tiro no peito, e também não renunciei", reforçou, afastando a sombra de Getúlio Vargas, presidente que se matou em 1954 com um tiro no peito, após forte pressão para que deixasse o governo.

Nova rotina

Afastada do comando do país, Dilma tem se dividido entre compromissos no Alvorada, visitas à família em Porto Alegre e viagens pelo país custeadas por uma "vaquinha" que já arrecadou quase R$ 800 mil na internet.

Sua agenda inclui encontros com movimentos sociais, parlamentares e muitas entrevistas - no dia anterior, quinta-feira, havia recebido a imprensa japonesa.

Na conversa com a BBC Brasil, na ampla biblioteca do Alvorada, disse que pouca coisa mudou na sua vida pessoal - o tempo livre segue raro, segundo ela, e se divide entre musculação, bicicleta, livros e filmes.

A principal novidade na agenda de compromissos, contou, é o aumento do contato mais direto com as pessoas.

Dilma tem se dividido entre compromissos no Alvorada, visitas à família e viagens pelo país © Fornecido por BBC Dilma tem se dividido entre compromissos no Alvorada, visitas à família e viagens pelo país 
 
"Hoje a atividade é diferente, eu não tenho atividade de gestão, mas eu tenho atividade de conversa, persuasão, discussão, avaliação, e de receber pessoas. Essa atividade exige uma presença minha extremamente direta e pessoal. Não tem eu ser representada, que na atividade presidencial tem. Tem um contato direto com as pessoas que tem sido muito bom", notou.

Uma das companhias constantes no Alvorada tem sido a da equipe da cineasta Anna Muylaert, que grava um documentário sobre o afastamento de Dilma - eles acompanharam a entrevista à BBC Brasil.

Outra visita frequente é a do seu advogado, o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo. Na última sexta-feira, uma bicicleta verde em estilo retrô, que Dilma emprestou para ele se locomover de um hotel próximo, onde está morando, até o palácio, estava estacionada na garagem do Alvorada ao lado de outras duas da presidente, com um capacete pendurado na cestinha.

Apesar de a rotina seguir "intensa", na sexta-feira, a agenda estava mais tranquila - após conceder entrevista por uma hora à BBC Brasil, Dilma ficou mais 30 minutos conversando com a equipe de reportagem.

Contou que aprendeu a dançar tango com colegas de prisão durante a ditadura militar, mas que hoje gosta mais de ouvir Bach. Disse também que aprecia uma taça de vinho, pois os efeitos da quimioterapia que fez para tratar um câncer já não lhe permitem beber muito mais que isso.

E disse não ver "oposição" entre vida política e privada. "Elas se inter-relacionam. O que é a vida política pra'ocê? É a vida em que você se coloca perante os outros, em que você não está olhando só o seu interesse".

Autocrítica

Sobre as denúncias de corrupção envolvendo o seu partido, a presidente afastada disse que o PT havia sido "contaminado pela política tradicional" e precisava "fazer uma autocrítica".

No entanto, ao ser questionada sobre ela própria poder se eximir de responsabilidades pelo fato de o esquema de corrupção ter ocorrido enquanto exercia a Presidência, repetiu a resposta que havia dado em entrevista à BBC em maio, dias antes de ser afastada - fez novamente um paralelo entre o esquema de corrupção da Petrobras e a crise financeira que estourou em 2008 nos Estados Unidos.

"O maior processo de corrupção recente no mundo foi o estouro da bolha financeira. Nada envolveu mais dinheiro, mais malfeito e processos irregulares de controle. (...) Não é algo trivial descobrir a corrupção. (...) A característica principal da corrupção é agir às escuras, escondendo suas práticas corruptas, é esconder e criar toda uma cumplicidade e não deixar traços."

Presidente afastada diz que ela e Lula fortaleceram instituições de combate à corrupção © Fornecido por BBC Presidente afastada diz que ela e Lula fortaleceram instituições de combate à corrupção 
 
A presidente afastada voltou a dizer que ela e seu antecessor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, investiram e fortaleceram as instituições de combate à corrupção. Afirmou também que não se pode "demonizar o PT".

"Este é um processo necessário ao Brasil. Uma sociedade tem de se fortalecer para combater a corrupção. O que não é correto é transformar uma luta contra a corrupção numa luta político-ideológica, como se o que ocorre no Brasil seja integral responsabilidade do Partido dos Trabalhadores".

No momento em que os olhos do mundo se voltam para a Olimpíada do Rio de Janeiro, Dilma disse que sua ausência na abertura do evento não é um "mau sinal" para a comunidade internacional.

"Eu acredito que os chefes de Estado, de governo, as delegações (são) pessoas sensíveis e inteligentes que vão entender claramente que eu participar da Olimpíada, tendo como a pessoa que preside a Olimpíada o vice-presidente que deu um golpe no meu governo, eu ficar disputando quem é que é a autoridade dentro do Maracanã é que daria um mau sinal", disse.

"E um mau sinal para mim também. Tenho clareza de que meu lugar era na tribuna de honra, não só por ser presidenta, porque nisso quem trabalhou fui eu. Então, por direito e também por trabalho, era lá que eu tinha de estar", acrescentou.