O empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia, confirmou que
em contrato da Petrobrás nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de
Janeiro (Comperj) – iniciada em 2009 – pagou R$ 15 milhões em propinas
ao PT por meio de “doações oficiais fracionadas”.
LEIA ÍNTEGRA DE DELAÇÃO DE RICARDO PESSOA SOBRE OBRA DO CONSÓRCIO TUC NO COMPERJ
“Os
valores destinados ao PT foram pagos na forma de doações oficiais
fracionadas, no montante total aproximado de R$ 15 milhões, conforme
acertado com João Vaccari”, disse Pessoa, em depoimento prestado no dia
28 de maio à Procuradoria Geral da República.
Primeiro dono de uma
grande empreiteira a fechar acordo de delação premiada nos processos da
Operação Lava Jato, as revelações de Pessoa confirmam a atuação do
cartel de empreiteiras, que pagava propinas nas contratações da
Petrobrás, e desnuda como empresas dividiam dentro de consórcios a
responsabilidades sobre os pagamentos de corrupção.
“A UTC, na
divisão de encargos do consórcio, foi incumbida de pagar a propina
destinada ao partidos dos trabalhadores e à Diretoria de Serviços”,
confessou Pessoa em seu termo de colaboração 24 – sobre a propina das
obras do Comperj.
“A responsabilidade pelo pagamento da propina
relativa à Diretoria de Abastecimento, destinada a Paulo Roberto Costa e
ao Partido Progressista, por meio de Alberto Youssef, foi assumida pela
Odebrecht.”
A UTC era sócia da Odebrecht e da japonesa Toyo
Engeneering nesse contrato do Comperj, de R$ 2 bilhões. Ao todo, o
consórcio teve R$ 3,8 bilhões da estatal.
A confissão do dono da
UTC complica dois alvos atuais da Lava Jato: o ex-ministro da Casa Civil
José Dirceu – responsável pelo grupo político pelo qual foi canalizado
os recursos desse contrato, na Diretoria de Serviços – e os executivos
da Odebrecht.
Cota da UTC
Dentro dos
pagamentos que era responsabilidade da UTC, o empreiteiro citou o
ex-gerente de engenharia Pedro Barusco e seu sucessor Roberto Gonçalves
– que ainda não foi alvo das operações – e o lobista Julio Gerin
Camargo, que atuava como lobista da Toyo no Brasil.
Pessoa contou
que o contrato era para ser uma concessão e que para isso foram feitos
estudos e investidos recursos. “A Petrobrás acabou recusando o projeto
de concessão, por entender que a sua execução tinha ficado muito cara”,
contou Pessoa. A estatal teria decido então pela contratação direta
“pelo fato de o projeto das obras ter sido desenvolvido pela Odebrecht,
UTC e Toyo, inviabilizando uma licitação”.
O objeto da contratação
direta, segundo Pessoa, foi definido como Central de Utilidades. “Se
formou um consórcio entre a Toyo, a UTC e a Odebrecht, chamado Consórcio
TUC, o qual foi contratado.”
O empreiteiro detalhou qual foi a
cota da propina que ficou a cargo da UTC, dividindo em quatro
beneficiários: 1) o lobista Julio Camargo, que recebeu R$ 42 milhões, 2)
Pedro Barusco, ex-gerente de Engenharia, R$ 2 milhões; 3) Roberto
Gonçalves, que sucedeu Barusco na gerência, que recebeu “pouco menos de
R$ 5 milhões”; e 4) João Vaccari, “R$ 15 milhões.
No caso de Julio
Camargo – que era ligado a Dirceu -, os valores foram superiores aos
demais “em razão da inviabilização do projeto de concessão e da
contratação direta do Consórcio TUC, pela sua atividade de intermediação
dos interesses da Toyo e da Mitsui, bem como pelas despesas por ele
feitas com a elaboração do projeto de concessão”.
Os valores
recebidos pelo lobista foram por intermédio de suas empresas, que ele
confessou ter usado para movimentar dinheiro de propina, Treviso,
Piemonte e Auguri. Para provar o que diz, entregou os registros de
transferências.
No caso dos valores entregues aos dois ex-gerentes
de Engenharia, Pessoa afirmou que foram em espécie. “Os pagamentos a
Pedro Barusco e a Gonçalves foram feitos em espécie com dinheiro
retirado do caixa dois da UTC.” Os ex-gerentes eram cargos de confiança
do diretor de Serviços, na época Renato Duque – sustentado politicamente
no cargo, por Dirceu.
Confissões cruzadas
A
confissão de Pessoa vai ao encontro das afirmações de quatro outros
delatores envolvidos nesse contrato do Comperj, com o Consórcio TUC,
dentro dos núcleos de agentes públicos e operadores financeiros do
esquema.
Na Diretoria de Abastecimento, que implica a Odebrecht, o
ex-diretor Paulo Roberto Costa e o operador de propinas do PP Alberto
Youssef tinham confessado o esquema. Na Diretoria de Serviços, Barusco e
Julio Camargo também confessaram suas participações.
As obras do Comperj envolvem boa parte das 16 empreiteiras do cartel.
A
construção do complexo foi um dos maiores empreendimentos individuais
da história da Petrobrás, com valor estimado de investimento em US$ 8,4
bilhões. A terraplanagem foi iniciada em 2008.
Pessoa disse ter
sido procurado em 2009 pelo ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto
Costa para iniciar as tratativas desse contrato.
COM A PALAVRA, AS DEFESAS
JOÃO VACCARI NETO
O
advogado Luiz Flávio Borges D’Urso, que defende João Vaccari Neto,
afirmou que o ex-tesoureiro do PT ‘jamais arrecadou propinas’.
D’Urso
é taxativo. “O sr. Vaccari jamais recebeu qualquer doação ilegal. Todas
as doações foram realizadas ao PT, depositadas na conta bancária e
prestado contas às autoridades.”
ODEBRECHT
Nota da assessoria de imprensa, da Odebrecht:
As manifestações das defesas do executivo e dos ex-executivos da Odebrecht se darão nos autos do processo.
JOSÉ DIRCEU
O
ex-ministro José Dirceu nega o recebimento de propinas. O criminalista
Roberto Podval, que defende Dirceu, apresentou à Justiça contratos e
notas dos recebimentos pela JD Assessoria da UTC. Ele afirma que os
valores são legais referentes à consultoria de prospecção de negócios no
exterior.